Projetos sobre inovação, tecnologia, inclusão e sustentabilidade venceram a 6ª Jornada Meninas na Ciência

Em um evento que se propõe reduzir e eliminar a discriminação de gênero, nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura e religião, em especial para as meninas e mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas por meio do ensino, pesquisa, extensão e inovação, a VI Jornada Meninas na Ciência, promovida pelo Instituto Federal do Pará (IFPA), reuniu projetos notáveis que se alinham aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
O estudo do uso da folha de bananeira em substituição ao papel-alumínio, a pesquisa dos genes do camarão amazônico e a aplicação de realidade aumentada no ensino de Química para surdos ganharam destaque por serem as vencedoras da Jornada.
Inclusão e tecnologia
A estudante do curso Técnico integrado em Informática do campus Breves Bruna Reis dos Santos garantiu o terceiro lugar com o projeto “ARquim LIBRAS: implementação de ferramentas de realidade aumentada para promover a inclusão de alunos surdos em laboratórios de Química”.
Diante das próprias dificuldades e por conviver com outros sete estudantes surdos no campus Breves, com esse trabalho Bruna pensou em facilitar o acesso dos surdos às aulas no Laboratório de Ensino de Química e Inclusão. Para realizar os estudos e produzir o aplicativo, ela contou com a orientação do professor Adenilton Camilo da Silva e dos intérpretes de Libras Milena Farias Móia, Rômulo Martins Custódio e Ronald Quaresma.
Durante a apresentação para a banca, Bruna explicou que a Química é um conhecimento muito importante para a compreensão do mundo e para responder várias perguntas. Ela utilizou como exemplo a maçã, que é composta por elementos como ferro, zinco, vitamina C, água e energia. E explicou que é pelo fato de sabermos da existência destes componentes que é possível explicar o porquê esta fruta escurece quando é cortada ou o porquê sua casca é dura. Mas, como explicar tudo isso aos surdos? Como interpretar em sinais esses elementos que não existiam em Libras?
Em busca dessas e outras respostas, Bruna pensou em unir Libras e a realidade aumentada por meio de um aplicativo. O objetivo foi conseguir projetar os sinais em laboratório de Química, gerar e garantir inclusão, melhorar a aprendizagem durante as aulas, aumentar a liberdade dos surdos no processo de busca do conhecimento e melhorar a relação entre os estudantes, os intérpretes e docentes. Como metodologia, ela buscou a opinião dos estudantes surdos, estudou práticas experimentais, criou um glossário com os sinais e símbolos para a vidraria do laboratório, fez as filmagens, criou o dicionário de Química em Libras, desenvolveu o aplicativo ARquim Libras, fez experimentos para verificar a utilização da ferramenta por alunos surdos do Campus.
Todas as etapas do desenvolvimento do aplicativo Arquim Libras foram registradas em fotografias e apresentadas para a banca avaliadora e às meninas que assistiam à apresentação. Bruna passou de cadeira em cadeira mostrando o funcionamento do aplicativo. “O projeto foi pensado para gerar inclusão. E foi pensado, desenvolvido e apresentado por uma aluna surda. Isso me deixa muito feliz”, falou emocionada a assistente de alunos Fátima Indira de Oliveira Costa que a estava acompanhando.
Avanços na Biologia e conhecimento científico
O segundo lugar foi conquistado pela estudante do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, Larissa Braga Ferraz orientada pelo professor Luciano Domingos Queiroz do Campus Tucuruí. Ela apresentou o projeto de “Caracterização de genes candidatos a hormônios esteroides no genoma funcional do Macrobrachium amazonicum (MELLER, 1862)”.
Larissa Braga Ferraz encantou a banca com a estruturação do trabalho, o domínio do conhecimento, metodologia, método e apresentação, assim como na demonstração dos objetivos de desenvolvimento sustentável alcançados com o projeto atendia. Para chegar a esse resultado, que encantou a banca, ela precisou superar alguns desafios durante a pesquisa. “A dificuldade que encontrei foi a falta de outros trabalhos científicos sobre o tema. E foi preciso levantar esses dados. Aqui, acreditei no meu potencial, fiz questão de apresentar da melhor forma de modo que todos entendessem o que eu estava apresentando e compreendessem a importância desta pesquisa para nós e para a região amazônica principalmente”.
Inovação e sustentabilidade
O primeiro lugar foi mérito das estudantes do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária do campus Itaituba Sthefany Aline de Oliveira Diniz, Darleny do Carmo dos Santos, Larissa Lima Costa e Vitória Sousa Quaresma. Elas foram orientadas pela professora Corina Fernandes de Sousa. A pesquisa delas, “Análise do uso da folha da bananeira como substituição do papel-alumínio na descoloração capilar”, foi apresentada por Sthefany Diniz.
Sthefany Diniz explicou que a ideia dessa pesquisa surgiu por inspiração no trabalho do cabeleireiro paraibano Josué Neto. Ela relata que fazia estudos sobre sustentabilidade e o algoritmo fez aparecer em sua tela as postagens feitas pelo profissional que, intuitivamente, utilizava a folha de bananeira em vez do papel-alumínio no processo de descoloração capilar.
Então, ela e as amigas decidiram fazer os testes em laboratório, seguindo a mesma dosagem de produto e tempo de reação, para verificar as vantagens e desvantagens de cada um dos materiais no processo de descoloração capilar. Definido o objeto de pesquisa, elas selecionaram e submeteram algumas mechas de cabelo aos dois processos de descoloração. “Foi observado que, enquanto a mecha submetida à técnica na folha de bananeira manteve a sedosidade, o brilho e a curvatura natural dos fios, a outra mecha tratada no papel-alumínio, ao contrário, ficou com uma cor opaca, os fios porosos e alterou a curvatura. Foram resultados imediatos”, detalha.
Sthefany Diniz relata, ainda, que elas levaram as mechas a três salões de cabeleireiros para os profissionais avaliarem os resultados com o olhar profissional. E, eles ficaram impressionados com a diferença e a possibilidade de ter um material capaz de substituir o alumínio. “A folha da bananeira é utilizada verde. Basta lavar para tirar poeira ou resíduos. Ela é muito resistente às altas temperaturas. Ela tem propriedades naturais que protegem os fios”, garante.
As pesquisas das estudantes continuam. A próxima proposta é dar um destino sustentável à folha de bananeira utilizada nessa técnica. Estão planejando verificar a viabilidade de produzir biofertilizante à base da folha de bananeira. “Medimos o pH inicial e o final da folha, antes e depois da realização da técnica. Percebemos que o ph subiu. Então, vamos trabalhar para deixar o ph o mais próximo possível do natural para a folha poder ser utilizada na compostagem orgânica”, adianta Estephani.
Para Estephani, o primeiro lugar é resultado da dedicação, empenho e de muitos estudos. No momento da premiação, ela fez questão de agradecer o apoio que recebeu das orientadoras e frisou que é mãe para incentivar outras mulheres a não desistirem de seus sonhos na ciência. “É muito difícil estudar e se dedicar à ciência e aos estudos depois que se é mãe. Mas, com apoio é possível”, falou emocionada com a classificação.
VI Jornada Meninas na Ciência
Em sua 6ª edição, a ‘Jornada Meninas na Ciência’ reuniu jovens pesquisadoras estudantes do Instituto Federal do Pará (IFPA), em Belém, nos dias 10 e 11 de fevereiro. O evento foi totalmente gratuito e aberto à participação da comunidade externa e interna. A programação contou com a apresentação de pesquisas e projetos, mesa-redonda, palestras e lançamento do livro.
A jornada é realizada anualmente pela Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação – (Proppg) do IFPA em alusão ao ‘Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência’. Tem por objetivo promover a igualdade de gênero e uma maior participação feminina na pesquisa científica desde o ensino médio técnico até a graduação de modo a colaborar com o desenvolvimento científico nacional. Nesta edição, a temática transversal foram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A proposta foi estimular a realização de estudos para acabar com a fome, a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas possam desfrutar de paz e de prosperidade no ambiente onde vivem.
A cerimônia de abertura contou com a presença da reitora do IFPA, Ana Paula Palheta; da diretora de Pesquisa, Pós-graduação, Inovação e Editoração do IFPA, Caroline Araújo de Souza; e do diretor de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação do Campus Belém, Laércio Gouvêa Gomes.
A reitora Ana Paula relembrou que a primeira edição do evento foi realizada em 2019. De lá para cá, a jornada tem proporcionado ao IFPA cada vez mais novas pesquisas e projetos bem fundamentados. Ela destacou que, em 2024, algumas das meninas que desenvolveram atividades no ‘Meninas na Ciência’ participaram da Semana Nacional da Ciência e Tecnologia, em Brasília, representando o Pará. E outras duas pesquisas garantiram premiação no Prêmio Jovem Cientista do CNPq agora em janeiro deste ano.
Considerando os alcances, a Jornada ‘Meninas na Ciência’ é muito mais do que a apresentação de trabalho. É um espaço para que as estudantes possam conhecer e criar redes de apoio com outras pesquisadoras e apoiadores das mulheres em espaços de protagonismo acadêmico e científico.
Ana Paula destacou que a instituição está cumprindo o que a ONU projetou para as mulheres, criando espaços e condições para que mais mulheres alcancem o reconhecimento e o direito de ocupar os espaços científicos e de protagonismo. “Não vamos abrir mão deste espaço. Temos visto quão precioso é direcionar a instituição por um caminho que permita que todas nós possamos trilhar uma carreira científica, uma carreira acadêmica e empreendedora”.
“Fico feliz em ver que esse evento abre o calendário acadêmico do instituto. Consolidando uma política de inclusão. Queremos que ocorra a inserção das mulheres nas mais variadas áreas de pesquisa e gestão, e que isso ocorra para além de nossa instituição”, afirmou a reitora Ana Paula ao parabenizar toda a equipe da Proppg pela realização do evento.
Após o momento inicial de boas-vindas e cerimônia de abertura, as estudantes tiveram a oportunidade de apresentar os resultados de suas pesquisas e responder às dúvidas da banca avaliadora. Cada trabalho foi avaliado por duas docentes. Elas observaram o domínio do conteúdo, a desenvoltura na apresentação, a metodologia e os resultados. Os trabalhos foram apresentados em quatro salas do B loco O do Campus Belém. Na tarde de segunda-feira, manhã e tarde de terça-feira, os trabalhos foram apresentados.
Objetos das pesquisas apresentas na Jornada Meninas na Ciência 2025
As estudantes escolheram objetos de estudos bem variados. Entre eles, se destacaram: Análise do uso da folha da bananeira na descoloração capilar, produção de bioplástico de cupuaçu, produção de etiqueta biodegradável, análise físico-química e perfil sensorial do mel de abelhas sem ferrão, biofiltros para tratamento de água residual em comunidades rurais, protótipo de óculos 3D para usuários de óculos de grau, sinalização tátil inclusiva, estudo da acessibilidade do campus Conceição do Araguaia, análise citogenômica em aves e desenvolvimento de website, cultivo in vitro de embriões bovinos, impacto ambiental do descarte de resíduos do caroço de açaí, análise dos eventos de seca sob cenários de mudanças climáticas na região do Araguaia, produção de adubo a partir de resíduos orgânicos, identificação de fungos patogênicos em utensílios de salões de beleza, o protagonismo das mulheres na luta pela terra e práticas agroecológicas de economia solidária em assentamento de Marabá, narrativas da migração transamazônica, vozes femininas na literatura de expressão amazônica, mapeamento e diagnóstico de empreendedorismo agroextrativista e pesqueiro na região do Salgado, mapeamento de psicultores e aquicultores em Vigia, estudo de genoma de aves e répteis.
Opiniões sobre a VI Jornada Meninas na Ciência
Para a professora de Química do Campus Parauapebas, Dra. Camila Gisele Damasceno Peixoto de Morais, uma das integrantes das bancas avaliadoras, esta edição do evento foi bem positiva pela possibilidade de interação com as apresentadoras das pesquisas. “Tivemos a oportunidade de fazer perguntas, dar sugestões e o próprio público também pôde se manifestar. Tudo isso foi muito salutar. A qualidade dos trabalhos também está mais robusta, principalmente na aplicação prática, gerando benefícios para a sociedade”, avaliou.
Para a estudante Merian Araújo Pantoja, a Jornada ‘Meninas na Ciência’ foi um marco na trajetória acadêmica que ela vem trilhando. Ela cursa Licenciatura em Educação do Campo no IFPA campus Breves, é bolsista orientada pela professora Eliane Alves. Ao iniciar sua apresentação, fez questão de demarcar seu lugar de fala: ribeirinha, agricultora, mulher, cooperada e pesquisadora. Seu projeto busca fortalecer o protagonismo feminino em sua comunidade e pretende desenvolver um aplicativo para facilitar a comercialização da produção local. “Participar do ‘Meninas na Ciência’ é a realização de um sonho e um passo importante que eu dou, um marco na minha vida e trajetória acadêmica”.
“Entre os trabalhos apresentados, os projetos da área botânica foram os que mais me chamaram a atenção. Minha área de estudo. Fiquei maravilhada em ver novas espécies e percebi que eu preciso aprender a identificá-las”, completa Merian Araújo.
A estudante do curso Técnico em Edificações Henryana Brás Sousa conversou conosco sobre as razões que a levaram a propor uma maquete para facilitar o ensino em seu curso. “Eu vejo a falta de ferramentas inclusivas no ensino. Muitas vezes, temos materiais que podem ser utilizados para fazer ferramentas inclusivas, como a impressora 3D, mas ficam paradas. Com a maquete que propus, é possível evoluir o ensino”.
“Dois projetos me chamaram a atenção: o estudo dos impactos do descarte inadequado dos caroços do açaí em Tucuruí e o mapeamento da falta de acessibilidade no projeto do prédio do Campus Conceição do Araguaia”, acrescenta Henryana.
A mãe de Henryana Brás Sousa, Ana Paula Rocha Brás, 36 anos, considerou as palestras e as apresentações das estudantes incríveis. O que a impressionou foi a diversidade de temas e a desenvoltura de cada uma. “A Jornada Meninas na Ciência é uma influência positiva, envolve uma diversidade de cultura e oportunidades para elas perderem o medo de trilhar a própria jornada. Eu sei que não é fácil, mas é preciso encarar e enfrentar os obstáculos, com firmeza para chegar onde elas desejarem”.
Para a professora do IFPA campus Paragominas, Daniele Malcher, é muito positivo o fato do instituto promover um evento que de fato promove oportunidades para gerar igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Uma ação que permite mais protagonismo às servidoras e alunas, nas comissões, projetos e pesquisas. “Como disse o pró-reitor Saulo, esse evento em números é pequeno, mas a dimensão e profundidade do conteúdo, das palestras e das experiências compartilhadas aqui foram muito enriquecedoras. É importante que a instituição e as alunas se engajem no desenvolvimento sustentável número 5”.
“Pra mim, enquanto servidora, o sentimento que fica após esse evento é de pertencimento. É um evento muito gratificante de participar. A gente se sente em casa. Estão todos de parabéns! Estou na expectativa dos próximos Meninas na Ciência”, conclui.
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